Em 2022, Parque do Caracol passou para a administração da iniciativa privada

Ao olharmos para a trajetória recente do turismo na Serra Gaúcha, é impossível não destacar o ano de 2022 como um verdadeiro divisor de águas para um dos cartões-postais mais amados do Rio Grande do Sul: o Parque Estadual do Caracol. Foi no final daquele ano que presenciamos o encerramento de um longo ciclo de administração pública direta para o início de uma nova era gerida pela iniciativa privada, um movimento que prometia — e cumpriu — a modernização e a qualificação deste importante ativo ambiental e turístico.

Até o início de dezembro de 2022, a gestão do parque estava sob a responsabilidade da Prefeitura de Canela, por meio de sua Secretaria de Turismo e Cultura. No entanto, a segunda-feira, dia 5 de dezembro de 2022, ficou marcada no calendário municipal como o dia oficial da transição. Na tarde da sexta-feira anterior, dia 2, a administração municipal havia recebido a comunicação oficial do Governo do Estado autorizando o Consórcio Novo Caracol a assumir integralmente a operação.

Para que essa mudança de chave ocorresse com segurança e para permitir as primeiras adequações estruturais necessárias à nova visão de gestão, o atrativo passou por um breve período de fechamento técnico entre os dias 5 e 16 de dezembro daquele ano, reabrindo logo em seguida para a alta temporada de verão.

Os Bastidores da Concessão e o Leilão Milionário

Para compreender a magnitude dessa mudança, é preciso revisitar os números superlativos que envolveram a negociação. O contrato de concessão, que englobou tanto o Parque do Caracol, em Canela, quanto o Parque do Tainhas, localizado na região nordeste do Estado, foi assinado oficialmente em 3 de novembro de 2022.

A vitória do consórcio Novo Caracol no leilão, realizado em agosto do mesmo ano, foi notícia nacional. O grupo arrematou a concessão com uma oferta de outorga fixa de R$ 150 milhões. Esse valor representou um ágio impressionante de 5.341% em relação ao lance mínimo estipulado no edital, demonstrando a confiança do mercado no potencial turístico da região. Esse montante foi integralmente repassado aos cofres do Governo do Estado.

A operação foi estruturada com o suporte técnico do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), garantindo solidez ao projeto. O contrato, com validade de 30 anos, previa um ciclo robusto de investimentos privados. Na época, foram estipulados aportes de R$ 47,6 milhões na infraestrutura dos dois parques, sendo que uma parcela significativa desse valor — cerca de R$ 23,7 milhões — tinha caráter obrigatório já nos primeiros seis anos de vigência (período em que nos encontramos atualmente). Além do investimento em obras e melhorias, o plano de negócios projetava despesas operacionais na ordem de R$ 417,3 milhões ao longo das três décadas de concessão.

Expertise e Treinamento: A Chegada da Iter Parques

A mudança de gestão trouxe para a Serra Gaúcha a expertise de grandes <i>players</i> do turismo nacional. Durante o período de transição em 2022, a concessionária utilizou as instalações do Centro Integrado de Desenvolvimento e Inovação de Canela (CIDICA) para realizar o treinamento intensivo de suas equipes. Vale lembrar que o grupo à frente do consórcio, a Iter Parques, carrega em seu portfólio a administração de ícones globais, como o Parque Bondinho Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, o que elevou imediatamente a régua de qualidade dos serviços esperados no Caracol.

O projeto apresentado pelo consórcio Novo Caracol/Tainhas tinha como pilares a sustentabilidade e a aventura. Desde o início, o plano previa a implementação de novas atividades para diversificar a experiência do visitante, como circuitos de arvorismo e trilhas revitalizadas, transformando a contemplação passiva da cascata em uma experiência imersiva na natureza.

Ganhos para Canela e a Manutenção de Direitos Locais

Um ponto crucial da negociação de 2022, e que trouxe tranquilidade à comunidade local, foi a manutenção dos benefícios aos moradores. Mesmo com a privatização da gestão, o acesso gratuito aos canelenses foi preservado, bastando a comprovação de residência. Essa medida garantiu que o parque continuasse sendo um espaço de lazer acessível para quem vive a cidade no dia a dia.

Do ponto de vista econômico, o Município de Canela também saiu fortalecido. A partir da publicação da concessão no Diário Oficial do Estado, em 2 de dezembro de 2022, a cidade passou a recolher receitas diretas decorrentes da operação privada, como o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e o Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN). Além disso, foi estabelecido o repasse de um percentual sobre a arrecadação bruta do parque, criando uma nova fonte de receita recorrente para os cofres públicos municipais.

Relembrar 2022 é reconhecer o momento em que o Parque do Caracol deixou de ser apenas um ponto turístico público para se tornar um empreendimento de nível internacional, unindo preservação ambiental, eficiência privada e retorno financeiro para a sociedade canelense.





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